Editorial
Valorizar a pesquisa em semiótica e ampliar a circulação do conhecimento produzido no campo são compromissos que ganham uma nova expressão nesta edição: o Prêmio ABES de Teses e Dissertações. Inédita na trajetória da Associação, a iniciativa reconhecerá trabalhos de destaque e dará maior visibilidade à contribuição de novas pesquisadoras e novos pesquisadores para os estudos semióticos.
Publicamos o regulamento da primeira edição, que contemplará teses e dissertações defendidas em 2025 e 2026, com indicações pelos programas de pós-graduação até 28 de fevereiro de 2027. A entrega dos prêmios ocorrerá durante o VII Congresso Internacional da ABES, de 12 a 15 de julho de 2027, na PUC Minas, em Belo Horizonte. Com essa iniciativa, a Associação amplia suas ações de incentivo à pesquisa e fortalece os vínculos com os programas, criando um espaço de reconhecimento e divulgação da produção acadêmica de diferentes correntes da semiótica.
Esta edição acompanha também os espaços de formação e diálogo da comunidade. Registramos a participação de Renata Mancini no Conversas Semióticas, do SemiÓLab, e divulgamos a palestra de Letícia Moraes sobre semiótica e inteligência artificial no seminário internacional on-line El Discurso de las Imágenes, organizado pela UNAM. Apresentamos, ainda, as atividades do Núcleo de Semiótica Poética da UFF, aberto a pessoas interessadas nos estudos da linguagem e da poesia.
Na seção de publicações, destacamos o dossiê Escola Semiótica de Tartu-Moscou, da revista Estudos Semióticos, que reúne pesquisas sobre o legado dessa escola e suas contribuições para compreender a produção de sentidos nas culturas contemporâneas.
Encerramos com a nota semiótica do professor Alexandre Marcelo Bueno, da USP. Ao examinar os restaurantes de imigrantes, o autor mostra como a gastronomia permite compreender as negociações de sentido entre culturas, considerando tanto as possibilidades de troca e reconhecimento quanto os conflitos, os estereótipos e as desigualdades que atravessam esses encontros.
A participação da comunidade é fundamental para dar continuidade a essas iniciativas. Convidamos as associadas e os associados a divulgar o prêmio em seus programas e a compartilhar notícias, atividades e sugestões de pautas para as próximas edições.
Boa leitura!
Diretoria da ABES
Gestão 2025–2027
Chamada
Teses e dissertações renovam os estudos semióticos ao propor questões, desenvolver abordagens e abrir caminhos de investigação. Para reconhecer essa produção e ampliar sua circulação, a ABES realizará, pela primeira vez, o Prêmio ABES de Teses e Dissertações, durante seu próximo Congresso Internacional, de 12 a 15 de julho de 2027.
Apresentamos, a seguir, o regulamento da premiação e convidamos as associadas e os associados a divulgá-lo em seus programas de pós-graduação, contribuindo para que a iniciativa alcance pesquisadoras e pesquisadores de diferentes instituições.
Regulamento do Prêmio ABES de Teses e Dissertações
O Prêmio ABES de Teses e Dissertações, da Associação Brasileira de Estudos Semióticos (ABES), visa incentivar a qualidade da produção científica em semiótica nos programas de pós-graduação e dar mais visibilidade a essa produção. Para tal, obedecerá às seguintes normas:
A premiação das melhores teses e dissertações em semiótica ocorre a cada Congresso da ABES e considera os trabalhos defendidos nos dois anos da gestão vigente (2025 e 2026).
Cada programa de pós-graduação interessado poderá indicar, para cada ano do biênio, até uma dissertação de mestrado e até uma tese de doutorado em semiótica que considere mais representativas da sua produção discente. As indicações deverão ser feitas em resposta à Chamada Pública divulgada pela Diretoria da ABES no site e na newsletter da Associação.
A submissão dos trabalhos será feita em PDF, pelo coordenador do programa de pós-graduação, diretamente no site da ABES, em campo criado para esse fim, até 28 de fevereiro de 2027. O trabalho deverá ser acompanhado de:
a. justificativa do coordenador do programa, com as razões da indicação pelo Colegiado, em no máximo mil caracteres, com espaços;
b. informação sobre a composição da banca examinadora;
c. cópia da ata de defesa.
Os trabalhos serão analisados por duas comissões julgadoras independentes, uma para teses e outra para dissertações, formadas pela Diretoria da ABES.
Cada comissão será composta por um membro da Diretoria da ABES, que exercerá a coordenação executiva dos trabalhos, sem direito a voto, e por cinco avaliadores. Os avaliadores serão integrantes dos corpos docentes de programas de pós-graduação e de correntes diversas da semiótica, de forma a garantir o máximo de equanimidade no processo. Em caso de desistência ou impossibilidade de participação de algum membro, a Diretoria providenciará a substituição.
Nenhum avaliador poderá avaliar trabalho oriundo do programa de pós-graduação ao qual esteja vinculado, em nenhuma das etapas. Os trabalhos defendidos em 2025 e em 2026 serão avaliados separadamente. O processo de seleção terá duas etapas:
a. Primeira etapa: os avaliadores atribuirão notas de zero a dez, com no mínimo três avaliações por trabalho. Os três trabalhos com maior média em cada ano seguirão para a segunda etapa.
b. Segunda etapa: cada avaliador classificará os finalistas de cada ano do primeiro ao terceiro lugar. Vence o trabalho com a menor soma de posições. Em caso de empate, prevalece a maior média obtida na primeira etapa.
Os critérios utilizados pelas comissões julgadoras deverão sempre incluir os seguintes quesitos:
originalidade do trabalho;
relevância para o desenvolvimento científico, e/ou tecnológico/econômico, e/ou político/social, e/ou saúde e bem-estar, e/ou ambiental;
robustez e/ou reprodutibilidade da metodologia e da análise de dados utilizadas no trabalho;
qualidade da redação e da estrutura/organização do texto;
grau de inovação e/ou interdisciplinaridade do trabalho;
qualidade e impacto dos produtos oriundos do trabalho.
Serão premiadas a melhor dissertação e a melhor tese defendidas em 2025, e a melhor dissertação e a melhor tese defendidas em 2026, totalizando quatro trabalhos premiados. Cada trabalho premiado receberá:
a. Certificado de Premiação;
b. inclusão na seção Prêmio ABES de Teses e Dissertações do site da ABES;
c. isenção da taxa de inscrição no Congresso da ABES em que o prêmio será entregue.
As comissões julgadoras poderão, adicionalmente, conceder até uma Menção Honrosa para dissertação e até uma para tese em cada ano do biênio, com o fim de dar visibilidade a outros trabalhos de mérito. Os trabalhos com Menção Honrosa receberão certificado e serão incluídos na seção do prêmio no site da ABES. Somados prêmios e menções honrosas, serão reconhecidos até oito trabalhos: quatro premiados e até quatro menções honrosas.
Os prêmios e as menções honrosas serão entregues durante o VII Congresso Internacional da ABES, de 12 a 15 de julho de 2027, na PUC Minas, em Belo Horizonte.
Aconteceu
SemiÓLab

Imagem: divulgação | Instagram @semiolab.ufpb
O SemiÓLab recebeu, no dia 23/9, a professora Renata Mancini, da USP, para mais uma edição do Conversas Semióticas.
Mediado pela professora Letícia Moraes, da UFPB, o encontro percorreu a trajetória acadêmica e pessoal de Renata Mancini e suas pesquisas no campo da semiótica, abordando os percursos, as escolhas e as experiências que participam da construção do sentido e atravessam a própria formação de uma semioticista.
Próximos eventos
Seminário Internacional On-line El Discurso de las Imágenes

Imagem: divulgação
A professora Letícia Moraes, da UFPB, participará, no dia 28/10, como palestrante do evento El Discurso de las Imágenes, organizado pela Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), que reunirá pesquisadores de diferentes escolas da América Latina. A semioticista apresentará a palestra Imágenes en la Datosfera: Semiótica e Inteligencia Artificial.
O seminário propõe discutir diferentes formas de construir conhecimento a partir de imagens e o modo como seus discursos possibilitam pensar a realidade social e física, abordando temas relacionados ao jornalismo, à ciência, à arte e às novas tecnologias. As inscrições podem ser feitas neste formulário.
Publicações
Publicação de dossiê temático na Estudos Semióticos

A revista Estudos Semióticos publicou o volume 22, número 2, dedicado ao dossiê Escola Semiótica de Tartu-Moscou, organizado por Maria Glushkova, da Queen Mary University of London, Alan Silus, da UEMS, e Ekaterina Vólkova Américo, da UFF. A publicação reúne artigos de pesquisadores do Brasil, do México, dos Estados Unidos, da Itália, da França e da Rússia, com análises teóricas e estudos de caso sobre as formas pelas quais as culturas contemporâneas produzem significados por meio de suas interações e pluralidades.
Segundo os organizadores, a maioria dos autores toma como ponto de partida o pensamento e os conceitos formulados por Iúri Lotman, por ser ele o representante da escola mais conhecido e mais traduzido no exterior. O dossiê também reúne pesquisas que trazem à tona a herança teórica de outros pesquisadores da Escola, como Lazar Riéznikov, Viatcheslav Vs. Ivánov, Vladímir Toporov, Aleksandr Piatigórski, Eleazar Meletínski e Boris Uspiênski.
Divulgação da semiótica
Núcleo de Semiótica Poética do SeDi-UFF

Imagem: divulgação
O Núcleo de Semiótica Poética, da UFF, promove, quinzenalmente, a discussão de textos teóricos em semiótica, linguística, poesia e áreas afins e a análise de textos poéticos de diferentes tradições literárias. O grupo reúne professores, pesquisadores, estudantes de graduação e pós-graduação e demais pessoas interessadas nos estudos da linguagem e da poesia.
Para cada encontro, os participantes definem previamente um texto teórico ou poético, que será discutido pelo grupo. Todas as pessoas interessadas são bem-vindas.
Próximos encontros: 11/9, 25/9, 9/10, 23/10, 6/11, 20/11, 4/12 e 18/12. Para mais informações, escreva para jpondian@id.uff.br.
Nota do semioticista

Foto: arquivo pessoal
Semiótica, imigração, interculturalidade, gastronomia e outras misturas
Alexandre Marcelo Bueno*
A imigração é um objeto de pesquisa multifacetado. Ela pode ser considerada um fenômeno social, histórico, linguístico, econômico, político e cultural. O que há em comum entre todos esses fenômenos é o fato de eles articularem uma dimensão do sentido que a alteridade traz, obrigatoriamente, para o cerne de uma outra cultura. A semiótica, em particular, aparece como uma possibilidade de atravessar os diferentes campos e ciências com sua especificidade teórica e metodológica.
Por isso, o espaço de um restaurante imigrante pode ser um campo onde se encontram diferentes formas de se compreender a construção da significação, por meio de discursos, práticas e objetos, em suas dimensões sensível e inteligível. Um restaurante imigrante não se refere apenas a um local aonde pessoas vão para consumir bebidas e comidas; ele é também um espaço no qual ocorre o encontro entre ao menos duas culturas – a brasileira e a do imigrante – que nos pode indicar modos de interação e articulação de significações entre uma sociedade que acolhe ou refuta uma comunidade estrangeira e os modos como essa mesma comunidade imigrante elabora suas estratégias de inserção.
A partir desse encontro, uma série de questões se abre para a semiótica: como os sentidos produzidos por culinárias estrangeiras indicam modos mais amplos de relação entre a cultura brasileira e os grupos imigrantes? Quais culturas são percebidas como familiares e quais são vistas como estranhas? Por que certos pratos se tornam mais rapidamente populares do que outros? Quais os mecanismos de tradução estão presentes no processo de adaptação e mesmo de incorporação de certos objetos gastronômicos? Quais são os restaurantes que permanecem à parte, ou seja, de certa forma, marginalizados? Qual é a função da imagem do país de origem do imigrante na aceitação ou, pior, na produção de estereótipos, preconceitos e racismos que repercutem na frequência de clientes brasileiros? Como os próprios imigrantes constroem a negociação dos sentidos de sua cultura, preservando, traduzindo, misturando ou reinventando objetos gastronômicos diversos para serem apresentados ao público brasileiro?
Obviamente, essas questões não serão todas respondidas neste breve texto. Mas podemos falar nos processos de produção e apreensão de sentidos relacionados à gastronomia dos imigrantes como indicativos de fenômenos mais amplos de valorização ou de desvalorização de culturas estrangeiras que organizam a interculturalidade, entendida como espaço instável de negociação, conflito e empréstimo de significações, tal como postulado pelo antropólogo Nestor Canclini.
A instabilidade que caracteriza a interculturalidade não possibilita, assim, prever que todos os casos serão bem-sucedidos, mas pode indicar zonas de contato, como a gastronomia, em que as diferenças são negociadas. Nesse espaço, nenhuma das partes envolvidas permanece igual, mas a assimetria de poder entre a comunidade imigrante e a sociedade brasileira determina quem pode classificar, aceitar ou recusar o outro. A relação pode, como mencionado, produzir empréstimos recíprocos e inovação, mas pode também gerar conflito, efeitos de exotização e mesmo violência simbólica. Isso mostra, por exemplo, que a proximidade física não implica reconhecimento social automático, pois os restaurantes estão presentes na cidade, mas podem continuar periféricos em termos de prestígio social e cultural.
No que se refere às negociações de sentido no espaço da interculturalidade, podemos mencionar o papel de três operadores linguístico-discursivos presentes em textos que trabalham com a entrada de um novo objeto cultural no âmbito da gastronomia brasileira: a tradução, a analogia e a inovação.
Nesse sentido, a análise de um cardápio, por exemplo, nos permite identificar três formas de tradução. A primeira ocorre entre linguagem verbal e visual: as imagens antecipam os pratos e limitam as possibilidades de interpretação do enunciatário-consumidor brasileiro. A segunda ocorre entre a língua estrangeira que nomeia os pratos e a língua portuguesa: os nomes mantêm a identidade da cultura de origem, enquanto as explicações ou descrições transformam a competência cognitiva do enunciatário. A terceira é intercultural: certos adjetivos (saboroso, crocante, reconfortante ou levemente picante) procuram convencer o enunciatário da qualidade sensível dos pratos e, assim, possibilitam reduzir o estranhamento antes da degustação, reformulando as expectativas do enunciatário no espaço do restaurante imigrante.
A analogia, por sua vez, revelou-se uma espécie de tradução intercultural, cuja função é minimizar o choque que o estranhamento pode gerar. "Boteco japonês", "pizza japonesa" e "nova polenta" são expressões que aproximam o desconhecido do familiar, apesar de se arriscar a reduzir a alteridade a categorias já conhecidas. Essa aproximação entre universos culturais distintos não elimina por completo a diferença, mas a torna mais inteligível para o enunciatário. Trata-se, assim, de uma operação intercultural que desacelera o impacto do estranhamento e a transforma em novidade.
A inovação e a adaptação, em geral, são práticas que podem indicar a coexistência de pratos brasileiros e imigrantes, sem fusão completa, mas em regime de mescla. Em outros casos, a inovação e a adaptação jogam com as expectativas do que será oferecido aos clientes, mesmo quando não fazem parte do que é ofertado nos estabelecimentos da cultura de origem. Desse modo, a adaptação e a inovação mostram modos de manipular a chamada tradição, indicando que a cultura, também gastronômica, é feita de fluxos contínuos de mudanças e conservações que servem, no seu limite, para diferenciar um estabelecimento imigrante de outro concorrente. Os estabelecimentos (e seus objetos), de alguma forma, preservam memórias de uma outra cultura estrangeira, assim como materializam suas línguas de origem e práticas comunitárias que podem se transformar no contato com a cultura brasileira e com os brasileiros.
Em resumo, a semiótica nos possibilita deslocar o foco tradicional dos estudos sobre imigração, sem, contudo, negar a importância do mundo do trabalho, das leis, das políticas migratórias e das desigualdades econômicas. Nesse sentido, este breve texto é capaz de fazer compreender, por meio da semiótica, que a gastronomia é um espaço privilegiado para compreender relações interculturais e o modo como nós, sociedade brasileira, lidamos com os sentidos da alteridade.
Ao mesmo tempo, por meio da semiótica, rechaça-se a ideia de que as culturas são blocos homogêneos e fechados, o que impede a reprodução de uma visão romântica do encontro intercultural, cuja principal ideia é a de que em todo encontro ocorre uma integração harmoniosa ou ainda um elogio supérfluo da diversidade. Pelo contrário, é possível compreender que a gastronomia é um espaço capaz de revelar hierarquias culturais, em que determinados estabelecimentos se beneficiam da imagem positiva de seus países de origem, assim como outros são prejudicados pela imagem disfórica que construímos de sua cultura. Desse modo, estudar os restaurantes imigrantes nos possibilita entender que a circulação e a aceitação de um prato não dependem apenas de suas propriedades sensíveis ou de um talento individual, mas também do prestígio (ou desprestígio) de uma cultura e de um grupo social que ele sintetiza e representa.
A semiótica possibilita observar ainda formas sutis de desigualdade, como indicam a necessidade de explicar determinados pratos e a facilidade ou a dificuldade de circulação de certos pratos. No limite, pode-se pensar em como a semiótica nos auxilia a refletir sobre as relações de reconhecimento ou de não reconhecimento por parte da sociedade brasileira e sobre seus meios de comunicação em relação ao outro que aqui chega.
* Alexandre é professor do Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Possui graduação em Linguística/Português pela Universidade de São Paulo (2002) e em Sociologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política (2024). É mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Semiótica e Linguística Geral da FFLCH-USP, onde também realizou o doutorado, concluído em 2011, com bolsa da Capes. Realizou estágio de doutorado-sanduíche na Université Paris 8, sob supervisão do professor Denis Bertrand, entre 2009 e 2010, com bolsa da Capes.
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